Restrições chinesas a terras raras ameaçam indústria global em US$ 6,5 tri
A IEA avalia que a implementação plena dessas medidas ameaça US$ 6,5 trilhões por ano em produção industrial fora da China, afetando cadeias produtivas inteiras que dependem desses minerais e de componentes feitos com eles.
Em 2025, a China impôs controles sobre exportações de terras raras pesadas e ampliou, em outubro, medidas que poderiam alcançar produtos fabricados no exterior se contivessem terras raras chinesas ou tecnologias originadas no país.
A IEA avalia que a implementação plena dessas medidas ameaça US$ 6,5 trilhões por ano em produção industrial fora da China, afetando cadeias produtivas inteiras que dependem desses minerais e de componentes feitos com eles.
Setores e regiões mais expostos
O impacto concentra-se principalmente nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e na Coreia do Sul. Por setor, a indústria automotiva aparece como a mais vulnerável, seguida por eletrônicos, defesa e servidores de data centers. As terras raras são essenciais na fabricação de ímãs permanentes de alta potência, presentes em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e máquinas de produção de semicondutores.
Dados centrais do relatório
- Estimativa de risco: cerca de US$ 6,5 trilhões por ano em produção industrial fora da China.
- Participação chinesa na mineração (2025): ~60% das terras raras usadas em ímãs magnéticos.
- Participação chinesa no refino (2025): ~85% do processamento mundial.
- Risco também em outros minerais: interrupção completa do comércio de grafite de grau-bateria poderia ameaçar mais de US$ 300 bilhões em produção anual fora da China.
- Financiamento público: compromissos nas economias avançadas alcançaram cerca de US$ 65 bilhões em 2025, segundo a IEA.
Concentração da cadeia e as medidas chinesas
A vulnerabilidade não decorre da escassez natural dos elementos, mas da forte concentração das etapas industriais — mineração, separação química, refino e fabricação de ímãs — em poucos países, sobretudo a China. A IEA considera que as novas medidas transformaram esse domínio em uma ferramenta capaz de afetar diretamente cadeias industriais globais.
Cenários de oferta e alternativas
No cenário mais otimista da IEA, a produção mundial de terras raras fora da China quase triplicaria até 2035, liderada por Austrália e Estados Unidos, com contribuições do Brasil, Índia, Tanzânia, Laos e outros. Se todos os projetos anunciados forem entregues, a participação chinesa na mineração de terras raras magnéticas poderia recuar de cerca de 60% em 2025 para 45% em 2035. No refino, porém, o avanço seria mais limitado: a China poderia ainda responder por cerca de 70% do processamento mundial em 2035.
O papel do Brasil
O relatório cita o Brasil entre os países com capacidade de ampliar a mineração de terras raras fora da China, destacando projetos em depósitos de argilas de adsorção iônica — um tipo de jazida em que os elementos ficam ligados à superfície das partículas e são recuperáveis por processos químicos. A rota demanda menos britagem e moagem que rochas duras, mas ainda envolve desafios ambientais e tecnológicos.
Políticas públicas e o “prêmio de segurança mineral”
A IEA defende que apenas forças de mercado dificilmente serão suficientes para diversificar as cadeias. Propõe instrumentos como empréstimos subsidiados, garantias públicas, participação acionária governamental, contratos de compra e pisos de preços para cobrir parte da diferença de custo entre produção dominante e alternativas. Já houve resposta: compromissos públicos nas economias avançadas saltaram para cerca de US$ 65 bilhões em 2025, mais de quatro vezes o valor de 2023.
Implicações práticas
A dependência concentrada significa que a falta de um componente crítico — por exemplo, um ímã específico — pode interromper a fabricação de produtos de alto valor, como veículos elétricos. Assim, a adoção de medidas para segurança de abastecimento pode elevar custos, mas reduzir riscos sistêmicos para cadeias industriais estratégicas.
Conclusão: o próximo passo
As restrições chinesas a terras raras colocam a indústria global diante de uma escolha: aceitar custos maiores para financiar cadeias mais diversificadas ou correr o risco de vulnerabilidades que podem travar setores inteiros. Governos e empresas precisarão decidir se aceitam pagar esse “prêmio de segurança mineral” e quais instrumentos usar para viabilizar alternativas em escala.
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