Portal 93
Com você onde você for.

Reduzir subsídios aos combustíveis fósseis: uma boa escolha para o Brasil

No documento entregue ao presidente, o conselho defende que a reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis seja conduzida como um “duplo dividendo”: ao mesmo tempo em que corrige uma distorção fiscal, abre espaço para financiar infraestrutura elétrica, bioeconomia, adaptação climática e mecanismos de transição justa para estados produtores.

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável entregou a Lula em 10 de junho a recomendação de eliminar, de forma gradual, os subsídios aos combustíveis fósseis uma mudança que corrige distorções orçamentárias e libera recursos para energia limpa e proteção social.

No documento entregue ao presidente, o conselho defende que a reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis seja conduzida como um “duplo dividendo”: ao mesmo tempo em que corrige uma distorção fiscal, abre espaço para financiar infraestrutura elétrica, bioeconomia, adaptação climática e mecanismos de transição justa para estados produtores.

Por que os subsídios são problemáticos

Economistas e organismos internacionais apontam que subsidiar combustíveis fósseis representa uma ineficiência orçamentária e uma duplicação do financiamento de uma mesma externalidade. Agências como a AIE, OCDE, FMI e fóruns como o G20 têm recomendado a reforma desses incentivos porque eles incentivam emissões de gases de efeito estufa, reduzem a competitividade de tecnologias limpas e desviam recursos públicos de prioridades sociais e de desenvolvimento.

Impacto fiscal e redistributivo

Dados do INESC mostram que entre 2023 e 2024 o Brasil reduziu subsídios de R$ 81,7 bilhões para R$ 47 bilhões. A mudança incluiu a retomada do PIS/Cofins sobre a gasolina, com aumento de preços menor do que projetavam os defensores da manutenção total dos incentivos, sem colapso de arrecadação. Além disso, é consenso que subsídio ao consumo tende a ser regressivo: beneficia mais quem tem automóvel do que famílias de baixa renda.

Argumentos contrários e limites

Defensores dos subsídios citam segurança energética, competitividade e proteção a consumidores vulneráveis. O documento do conselho reconhece esses riscos e recomenda um cronograma de redução progressiva acompanhado de mecanismos de proteção social. Também aponta que subsídios à produção, como regimes de competitividade tipo Repetro, podem ter justificativa desde que revisados e com prazos claros.

Risco de atraso e custo da postergação

Manter incentivos aos fósseis prolonga a dependência de tecnologias em declínio e aumenta o estoque de ativos, empregos e orçamentos amarrados ao setor fóssil, tornando a reforma futura mais cara. Ao mesmo tempo, o Brasil dispõe de vantagens comparativas para energia renovável e produção de hidrogênio de baixa emissão, combustíveis sustentáveis para aviação, amônia verde e produtos industriais de baixo carbono — áreas que poderiam se beneficiar do redirecionamento de recursos.

Como fazer a transição

O conselho defende uma reforma gradual, transparente e previsível, com proteção para os grupos vulneráveis e reinvestimento dos recursos economizados em benefícios tangíveis. A experiência internacional indica que reformas bem-sucedidas combinam comunicação clara, gradualismo e políticas de compensação e capacitação.

O momento político: COP31 e a agenda nacional

Na COP31, na Turquia, o Brasil tem oportunidade para apresentar um plano de transição que inclua um cronograma de redução dos subsídios aos combustíveis fósseis e medidas de apoio social e investimentos em alternativas. A urgência é prática: cada ano de atraso torna a reforma mais complexa e onerosa.

Conclusão — o que vem agora

A recomendação do Conselho coloca na agenda uma mudança que combina eficiência fiscal e estratégia climática. A implementação exigirá cronograma claro, proteção social e destinação dos recursos para energia limpa e desenvolvimento sustentável. A pergunta que fica é prática: se a redução parcial já ocorreu sem colapso, por que não avançar de forma planejada e completa?

Comentários estão fechados.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você esteja bem com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceito Leia Mais

Politica de Privacidade & Cookies