Agronegócio em crise: BB limita financiamentos
Banco do Brasil sofre impacto da crise no agronegócio e endurece crédito para produtores
Lucro do banco cai 60% no trimestre, inadimplência rural atinge níveis recordes e instituição promete acionar escritórios de advocacia por incentivar recuperação judicial.

O agravamento da crise no campo começa a repercutir com força no sistema financeiro. O Banco do Brasil, maior financiador do agronegócio nacional, registrou uma queda de 60% no lucro líquido ajustado no segundo trimestre de 2025, totalizando R$ 3,8 bilhões, segundo balanço divulgado nesta semana. O resultado reflete o avanço da inadimplência entre produtores rurais e a disparada nos pedidos de recuperação judicial no setor.
De acordo com a presidente da instituição, Tarciana Medeiros, 20 mil clientes ligados ao agronegócio estão inadimplentes, o que representa 2% da carteira de aproximadamente 1 milhão de tomadores. Desse grupo, 74% jamais haviam atrasado pagamentos até 2023, revelando a gravidade da atual crise.
Recuperações judiciais em alta
O número de pedidos de recuperação judicial no campo saltou para 389 no primeiro trimestre de 2025, alta de 45% em relação ao mesmo período de 2024, segundo a Serasa Experian. Hoje, 808 clientes do banco já estão em recuperação judicial, somando R$ 5,4 bilhões em dívidas vencidas.
Segundo Medeiros, parte desse aumento estaria relacionado à atuação de escritórios de advocacia que, em vez de buscar renegociações diretas com a instituição, estariam incentivando produtores a recorrer de imediato ao mecanismo judicial. O Banco do Brasil anunciou que vai acionar judicialmente os escritórios considerados responsáveis por práticas abusivas, em parceria com a Advocacia-Geral da União (AGU) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Endurecimento do crédito
Para conter riscos, o banco informou que a partir da safra 2025/26 os critérios de concessão de crédito serão mais rígidos. Uma das mudanças é a substituição da hipoteca pela alienação fiduciária, que aumenta a garantia do financiamento e reduz a margem de risco. Segundo o BB, o valor financiado com essa modalidade já dobrou em agosto de 2025 em comparação a agosto de 2024.
Origem da crise
Especialistas apontam que a turbulência financeira no campo é resultado de uma sequência de choques climáticos e macroeconômicos: seca em 2023, enchentes em 2024, além de juros altos, custos crescentes de insumos e a adoção da nova resolução do Banco Central (CMN 4.966), que exige provisões maiores para perdas esperadas.
Perspectivas
Apesar do cenário negativo, o Banco do Brasil projeta uma melhora gradual ainda em 2025. A expectativa está na recuperação da safra 2025/26, com clima mais favorável e preços internacionais melhores para soja, milho e pecuária.
“Estamos diante de um momento desafiador, mas o agronegócio brasileiro é resiliente. Com disciplina financeira e uma safra robusta, o setor deve voltar a se equilibrar”, afirmou Medeiros.
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