Alívio na inflação é passageiro e não garante queda do juro, diz economista

O IPCA de junho desacelerou para 0,16%, trazendo um aparente alívio na inflação  mas economistas alertam que o efeito deve ser temporário e não muda, por si só, a trajetória da Seli

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,16% em junho, abaixo dos 0,58% de maio e também inferior às expectativas de mercado.

Especialistas consideraram o resultado positivo, com surpresa concentrada no grupo de alimentação, que apresentou deflação quando o mercado esperava variação positiva próxima de 0,20%.

Por que os economistas classificam o resultado como “irretocável”

Luís Otávio Leal, da G5, afirmou que o número foi “irretocável” tanto na quantidade quanto na qualidade. Ele destacou que:

  • Seis dos nove grupos do IPCA registraram desaceleração no mês — o equivalente a dois terços do índice;
  • Os indicadores qualitativos, que medem a qualidade da inflação, vieram abaixo do esperado e em queda;
  • O acumulado em 12 meses também desacelerou, surpreendendo analistas que aguardavam aceleração.

Elementos que ampliaram a surpresa positiva

Leal apontou que sinais prévios, como o IPCA-15, já sugeriam desaceleração no setor de alimentos. Além disso, fatores temporários — em especial a deflação de alimentos e o chamado “bônus de Itaipu” previsto para agosto — devem reduzir índices nos próximos meses, elevando a sensação de alívio na inflação no curtíssimo prazo.

Por que o alívio pode ser temporário

Apesar das leituras favoráveis em junho, o economista advertiu que a tendência pode se inverter a partir de setembro. Os principais riscos citados foram:

  • Fim do efeito do bônus de Itaipu;
  • Impactos do fenômeno climático El Niño sobre preços de alimentos, com efeitos que podem se estender até o início do próximo ano;
  • Medidas de estímulo ao consumo que tendem a pressionar a inflação de serviços no segundo semestre.

Efeito sobre a política monetária e a Selic

Leal avaliou que um único número positivo do IPCA não é suficiente para alterar a perspectiva da política monetária. Com o acumulado em 12 meses ainda acima do teto da meta, o espaço para retomada de cortes na taxa Selic permanece restrito. Na leitura do economista, o Banco Central deve:

  • Manter a taxa nos encontros de agosto, setembro e novembro;
  • Avaliar cortes apenas a partir de dezembro — e somente se houver maior clareza sobre o cenário político pós-eleições.

Implicações práticas

Para consumidores, o alívio nos preços de alimentos e a desaceleração generalizada do IPCA podem reduzir pressões imediatas nos orçamentos. Para mercados e formuladores de política, porém, trata-se de um sinal temporário que precisa ser confirmado por séries de dados consistentes antes de influenciar decisões sobre juros.

Conclusão

O resultado de junho oferece um respiro positivo, mas especialistas reforçam que o alívio na inflação é, por ora, transitório. Riscos sazonais e estruturais apontam para possibilidade de reversão nos próximos meses, o que limite a capacidade do Banco Central de acelerar cortes na Selic sem sinais adicionais de queda sustentada da inflação.