Uso de R$ 40 bi em crédito rural deve acelerar conversão de área degradada

Um estudo inédito da Agroícone mostra que a recuperação de pastagens degradadas pode mobilizar quase R$ 40 bilhões por safra se os recursos do crédito rural forem alocados com mais eficiência uma alternativa para ampliar a produção sem abrir novas áreas.

A pesquisa identificou R$ 17,2 bilhões já destinados a imóveis com pastagens degradadas e estima necessidade adicional de R$ 22,6 bilhões, indicando um potencial de investimento capaz de impulsionar competitividade, resiliência climática e renda rural sem expandir a fronteira agrícola.

Estudo indica onde está o dinheiro — e onde ele poderia gerar mais impacto

O levantamento da Agroícone cruzou dados do Banco Central com critérios próprios para mapear propriedades com potencial de recuperação. Segundo o estudo, parte significativa do financiamento necessário já existe dentro das linhas do crédito rural: hoje há R$ 30,5 bilhões em instrumentos alinhados à sustentabilidade. O desafio, afirmam os autores, é realocar e priorizar esses recursos para transformar pastagens degradadas em áreas produtivas e resilientes.

Os números concretos

  • R$ 17,2 bilhões: recursos já alocados em imóveis que possuem pastagens degradadas;
  • R$ 22,6 bilhões: necessidade adicional estimada pelo estudo;
  • Quase R$ 40 bilhões: potencial total de investimento por safra, somando alocação atual e necessidade adicional;
  • 4,2 milhões: número aproximado de imóveis com pelo menos um hectare de pastagem analisados pela pesquisa.

Metodologia e priorização: mais informação, menos dispersão

A proposta técnica da Agroícone não pede aumento de subsídios públicos, mas um refinamento na forma de alocação. O estudo desenvolveu uma metodologia para identificar propriedades com maior potencial de receber investimentos voltados à recuperação. Segundo Leila Harfuch, sócia da Agroícone, “não estamos propondo uma mudança na política pública do crédito rural. O objetivo é direcionar melhor os recursos para a recuperação de pastagens degradadas, permitindo a expansão sustentável da agropecuária”.

Por que priorizar propriedades específicas?

Os pesquisadores defendem que entender o perfil do produtor e a condição do imóvel — quem tem área degradada e capacidade de implementar projetos de recuperação — é essencial para que o financiamento gere ganhos reais de produtividade, estoque de carbono e renda. Parte dos recursos do crédito rural atualmente é usada apenas para compra de bovinos, sem promover melhorias estruturais que revertam a degradação.

Integração com capital privado: Eco Invest como alavanca

O estudo recomenda combinar instrumentos públicos existentes com recursos privados por meio do programa Eco Invest, criado no âmbito do Plano de Transformação Ecológica. A ideia é usar o capital privado para compartilhar risco e reduzir o custo financeiro do financiamento — um ponto crítico, principalmente para pequenos produtores.

“Capital acima de 7% ao ano é caro para esse tipo de investimento. A recuperação de pastagens é economicamente viável no longo prazo, mas os pequenos produtores precisam de condições mais favorecidas”, disse Harfuch. Para os autores, quanto maior o peso do Eco Invest na estrutura, mais factível será oferecer crédito compatível com a transformação produtiva.

Barreiras práticas: dívida, custo e preferência por custeio

Os pesquisadores destacam que o atual quadro econômico do setor reduz a disposição por financiamentos de longo prazo: endividamento elevado, inadimplência em níveis recordes e prioridade do produtor em financiar custeio de safra limitam a adoção. Lauro Marques, da Agroícone, ressalta que “o dinheiro existe, mas sua adoção pelos produtores ainda avança lentamente diante da atual conjuntura do agro”.

Recomendações operacionais

  • Refinar critérios de elegibilidade para priorizar imóveis com maior potencial de recuperação;
  • Ampliar instrumentos de mitigação de risco, como seguro rural, para tornar investimentos de longo prazo mais atraentes;
  • Direcionar linhas de crédito para projetos que promovam melhorias estruturais — e não apenas aquisição de rebanho;
  • Integrar recursos públicos e privados (crédito rural + Eco Invest) para reduzir custo do capital.

Implicações para política pública e setor privado

Se aplicada, a estratégia proposta pode acelerar o cumprimento das metas governamentais de conversão e recuperação de pastagens, aumentar a produtividade sem pressão por desmatamento e contribuir para objetivos climáticos do país. Os autores alertam, porém, que sem mecanismos efetivos de priorização e redução do custo do financiamento, o potencial identificado ficará aquém do necessário.