Bilhões podem estar infectados: o parasita que continua sendo negligenciado

Apesar da ampla disseminação, a doença ainda recebe pouca atenção das políticas internacionais de saúde.

A toxoplasmose é uma infecção causada pelo protozoário Toxoplasma gondii e, segundo estimativas científicas, pode atingir entre 2,4 e 2,7 bilhões de pessoas em todo o mundo  cerca de um terço da população global.

Apesar da ampla disseminação, a doença ainda recebe pouca atenção das políticas internacionais de saúde.

Diante desse cenário, pesquisadores liderados pelos oftalmologistas Justine Smith, da Universidade de Flinders, na Austrália, e João Furtado, da Universidade de São Paulo (USP), defendem que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheça oficialmente a toxoplasmose como uma Doença Tropical Negligenciada (DTN).

O pedido foi apresentado em um artigo de opinião publicado no fim de junho na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases. Segundo os autores, essa classificação pode ampliar investimentos em pesquisas, fortalecer campanhas de prevenção e incentivar políticas públicas voltadas ao controle da infecção.

Como ocorre a transmissão

A infecção pode acontecer por diferentes formas, incluindo o contato com fezes de gatos contaminadas pelo parasita, o consumo de carne crua ou mal cozida, alimentos ou água contaminados, além da transmissão da mãe para o bebê durante a gestação, caso a mulher seja infectada nesse período.

Na maioria das pessoas, o parasita permanece no organismo por toda a vida sem provocar sintomas. No entanto, existem situações em que a doença pode causar complicações graves.

Quando adquirida durante a gravidez, a toxoplasmose pode atravessar a placenta e comprometer o desenvolvimento do feto, provocando abortos espontâneos ou sequelas neurológicas e oculares permanentes. Estimativas citadas por estudos científicos indicam que aproximadamente 190 mil crianças nascem anualmente com toxoplasmose congênita.

A doença também é uma das principais causas de infecção na retina, podendo provocar inflamação ocular, redução da visão e, em casos mais graves, perda permanente da capacidade visual.

Além disso, pesquisas seguem investigando possíveis relações entre a infecção crônica e alterações comportamentais ou neurológicas. Alguns estudos sugerem uma associação com maior risco de transtornos como a esquizofrenia, embora essa ligação ainda seja tema de debate na comunidade científica.

Nos animais, especialmente em roedores, esse efeito já foi amplamente observado. O parasita reduz o medo natural dos ratos em relação aos gatos, facilitando seu ciclo de transmissão.

Impacto maior nas populações vulneráveis

Os pesquisadores destacam que a toxoplasmose afeta de forma desproporcional regiões com menor acesso a saneamento, água potável e serviços de saúde.

Nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 10% da população tenha sido infectada. Em algumas regiões do Brasil, principalmente em comunidades mais vulneráveis, a prevalência pode alcançar até 80% da população.

Segundo Justine Smith, a toxoplasmose representa uma das principais causas de doenças oculares infecciosas e perda de visão no mundo, mas continua recebendo pouca atenção das estratégias globais de saúde.

João Furtado ressalta que, apesar de muitas pessoas considerarem a infecção inevitável, ela pode ser prevenida com medidas relativamente simples.

Prevenção continua sendo a melhor estratégia

Atualmente não existe vacina nem tratamento capaz de eliminar completamente o parasita do organismo. Os medicamentos disponíveis ajudam apenas no controle da infecção quando ela se manifesta.

Entre as principais medidas preventivas estão cozinhar bem as carnes, higienizar frutas e verduras, lavar as mãos após o contato com carne crua, terra ou caixas de areia de gatos, consumir apenas água potável e reforçar os cuidados durante a gestação.

Os pesquisadores também ressaltam que o controle da toxoplasmose depende de investimentos em saneamento básico, segurança alimentar, acesso à água tratada e acompanhamento pré-natal de qualidade.

Para a equipe, o reconhecimento da toxoplasmose como Doença Tropical Negligenciada pela OMS poderá impulsionar pesquisas para o desenvolvimento de vacinas, novos tratamentos e métodos de diagnóstico, além de ampliar ações de prevenção e assistência à população.