Agro em Alta: Como Produção Cheia e Vendas Externas Turbinam os Resultados

Empresas do agronegócio registrarão lucros significativos neste segundo trimestre, impulsionadas por exportações aquecidas, uma safra de grãos excepcional e estratégias de hedging que minimizaram a volatilidade dos preços. Segundo analistas, o cenário é relevante não apenas para as companhias, mas também para o setor econômico brasileiro como um todo.

O impacto das tarifas de 50% aplicadas pelos EUA sobre os produtos brasileiros deverá ser um fator decisivo para os resultados trimestrais vindouros. Embora os frigoríficos de carne bovina possam amenizar os efeitos graças à operação em outros mercados, as usinas que fornecem açúcar orgânico aos EUA devem sentir os danos. Por outro lado, empresas de grãos podem ver um aumento na demanda da China, especialmente por soja.

Um estudo da Valor Data revela que, entre 24 companhias analisadas, apenas quatro reportaram prejuízo entre abril e junho. As empresas em questão foram Heringer, Vittia, Jalles Machado e Raízen. As outras 20 tiveram desempenho positivo, e cinco delas lucraram menos que no mesmo período de 2024. Destaque para a FS, que operou um salto de prejuízo de R$ 40,3 milhões para um lucro de R$ 256 milhões, e Agribrasil, cuja lucratividade cresceu 715% para R$ 16 milhões, graças à colheita recorde de soja e milho.

Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos, aponta que a resiliência do setor se deve à posição competitiva do Brasil no mercado global de grãos, carnes e açúcar. Exportações robustas para países como China e EUA, aliadas à diversificação dos portfólios, contribuíram para resultados fortes.

Enquanto isso, a São Martinho teve um lucro de R$ 62,8 milhões, mas enfrentou uma queda de 40,9% em comparação ao ano anterior, reflexo da quebra na safra de cana-de-açúcar. Na SLC Agrícola, os lucros totalizaram R$ 139,8 milhões, impactados por fatores não recorrentes, mas o Ebitda apresentou um crescimento de 115,6% devido a vendas recordes.

Sobre o setor de carnes, Guilherme Palhares, analista do Santander, afirma que o segmento de bovinos se destacou nas exportações, mesmo com taxas elevadas. Em contrapartida, a gripe aviária afetou as exportações de frango, com impacto já não sendo ignorado. A BRF reportou lucro líquido de R$ 735 milhões, uma queda de 32,8%. Já a Seara viu um pequeno impacto de 2,5% em sua receita líquida.

Renata Cabral, analista do Citi, acredita que as condições favoráveis para o mercado de frango devem continuar no terceiro trimestre, embora as pressões da gripe aviária permaneçam. A tarifa de 50% nos produtos enviados aos EUA, que aumentou o imposto sobre carne bovina a 76,4%, gera mudanças nas rotas de produção e exportação.

Além disso, os impactos negativos nos preços da carne no mercado interno são uma preocupação. Muitos analistas, como Gustavo Cruz da RB Investimentos, alertam que a capacidade do mercado brasileiro absorver toda a carne não exportada pode ser limitada.

Na cana, a Jalles Machado já projeta perda entre R$ 20 milhões a R$ 25 milhões devido à redução de competitividade do açúcar orgânico nos EUA, evidenciando um cenário desafiador. Por outro lado, as distribuidoras de insumos e produtores de grãos podem ter resultados melhores com o plantio precoce da soja, além da venda de algodão e milho da segunda safra.

Igor Guedes, analista da Genial Investimentos, salienta que as empresas de grãos têm potencial de se beneficiar da guerra tarifária entre EUA e China, com a soja brasileira visando conquistar espaço no mercado chinês.