A crescente preocupante do abuso sexual infantil no Brasil

O promotor de Justiça Rinaldo Segundo, da 14ª Vara Criminal da Capital, enfatiza que o criminoso sexual é uma figura comum.

Ele não possui um estereótipo e pode ser um bom cidadão, com família e trabalho. Muitas vezes, os agressores não têm antecedentes criminais e são ativos na comunidade. A quarta reportagem da série Arquivo Laranja aborda o perfil do predador sexual.

O abuso sexual infantil é um crime que atinge todas as classes sociais e, alarmantemente, mais de 90% das ocorrências acontecem dentro do ambiente familiar. Os agressores frequentemente são familiares ou conhecidos das vítimas, como pais, padrastos, tios, primos e vizinhos. De acordo com estudos, entre as vítimas de 0 a 13 anos, 65% dos agressores são membros da família e 22% são pessoas com quem a criança tem algum grau de relação.

Dados recentes revelam que, entre 2021 e 2025, Mato Grosso registrou 8.470 casos de estupro de vulneráveis. Só nos primeiros quatro meses de 2023, foram contabilizados 463 casos, o que representa uma média de quatro crimes por dia. As notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil em 2025 chegaram a cerca de 60 mil, de acordo com o Ministério da Saúde.

O promotor Rinaldo Segundo expressa preocupação com o aumento dos números e a subnotificação dos crimes, já que a maioria das agressões é cometida por quem deveria proteger as vítimas. Segundo ele, é estimado que apenas 10% dos casos sejam reportados ao sistema policial.

Em sua experiência de seis anos enfrentando crimes sexuais nessa Vara, ele encontrou réus que eram conhecidos na sua infância e que, surpreendentemente, estiveram próximos da sua família.

A assistente social J., de 45 anos, revela que nunca imaginou que um de seus filhos poderia ser vítima de abuso. Durante um torneio de futebol, seu filho de 13 anos foi abusado por uma pessoa de confiança da família. A mãe relata como, mesmo com todas as orientações, o filho foi abordado e agredido, mas conseguiu retornar à família e denunciar o crime, resultando na condenação do agressor a 14 anos de prisão, embora ele aguarde livre enquanto recorre.

A médica legista Alessandra Carvalho Mariano, atuando na Perícia Oficial e Identificação Técnica do Estado, também destaca que o predador sexual não tem um rosto definido, se camuflando entre diferentes personas e não levantando suspeitas. A especialista alerta que os abusadores podem estar presentes em ambientes familiares, escolares e até no mundo digital, onde os casos de crimes sexuais estão crescendo.

Alessandra menciona as vítimas do ambiente virtual, que podem sofrer danos psicológicos irreparáveis. Ela chama atenção para a necessidade de orientação aos pais sobre a importância de supervisionar as atividades online dos filhos. Além disso, Rinaldo Segundo aponta que, de janeiro a julho de 2025, foram denunciados 32 mil crimes cibernéticos envolvendo crianças e adolescentes no Brasil.

Para prevenir abusos, Alessandra recomenda que pais mantenham diálogos abertos com os filhos sobre os perigos do mundo e ensinem a designar pessoas de confiança para relatar situações desconfortáveis. A fiscalização das redes sociais é crucial, pois muitas vezes predadores se disfarçam como crianças. Rinaldo acrescenta que uma educação sexual adequada, informando sobre a intocabilidade dos órgãos sexuais, pode ser uma ferramenta eficaz na proteção das crianças contra abusadores.